El Niño: calor acima da média eleva demanda hídrica da soja no Matopiba
Inmet registra máximas até 3,6 °C acima do normal e solo ainda seco no início do plantio; histórico mostra efeito variado na produtividade.
O calor acima do normal e as chuvas mal distribuídas de setembro e outubro aumentaram a necessidade de água das lavouras no Matopiba, região agrícola que reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. A avaliação, divulgada nesta quarta-feira (4) pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), chega no momento em que o plantio da soja 2026/27 avança e em que o El Niño ganha força no Pacífico.
Segundo o Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA, a agência americana de oceanos e atmosfera, a anomalia de temperatura do mar na região Niño 3.4 chegou a +2,47 °C em outubro. A atualização de 8 de outubro indica que o fenômeno deve seguir entre as categorias forte e muito forte até o trimestre de janeiro a março de 2027, com 83% de probabilidade de o episódio superar em intensidade todos os eventos registrados desde 1950 no trimestre de outubro a dezembro.
Máximas até 3,6 °C acima da média
Setembro e outubro marcam, no Matopiba, a passagem da estação seca para a chuvosa, fase decisiva para recompor a umidade do solo e implantar a soja. Em setembro, porém, as chuvas foram escassas e irregulares, sem mudar de forma significativa a água armazenada no solo. Os maiores volumes ficaram no oeste e no norte do Tocantins e no sul da Bahia.
As estações do Inmet mostraram temperaturas máximas médias mais de 2 °C acima da climatologia em várias áreas. Em setembro, Jacobina (BA) teve anomalia de +3,0 °C e Morro do Chapéu (BA), de +3,6 °C. Outubro repetiu o padrão, com Cruz das Almas (BA) em +3,0 °C e Araguaína (TO) em +3,2 °C em relação à normal de 1991 a 2020.
Com mais calor, a evaporação do solo e das superfícies de água aumenta, e é preciso mais chuva para repor a umidade necessária à semeadura e ao início do desenvolvimento da soja. A boa notícia é que o armazenamento de água no solo cresceu de setembro para outubro, sobretudo no Tocantins, onde superou 30% em alguns pontos, ainda que em níveis baixos.
O que diz o histórico do El Niño
O Inmet comparou a produtividade da soja na região entre 1996 e 2025 e concluiu que o El Niño não está necessariamente ligado a quebra de safra no Matopiba. Na Bahia e no Piauí, metade dos anos com o fenômeno teve produtividade acima da média. No Tocantins, os anos na média e acima dela empataram, com 37,5% cada. No Maranhão, predominaram rendimentos próximos da média, em 50% dos casos.
Ainda assim, todos os estados tiveram anos com produtividade abaixo da média sob El Niño, com frequência entre 25% e 37,5%. O Piauí foi o mais variável, com a maior fatia de anos acima da média (50%) e também abaixo dela (37,5%). Para o instituto, o que define o resultado é a distribuição das chuvas ao longo do ciclo, principalmente quando a falta de água coincide com a floração e o enchimento de grãos.
Por enquanto, os efeitos se concentram no estabelecimento das lavouras: ritmo da semeadura, uniformidade da emergência e formação do estande. O Inmet avalia que ainda não é possível prever o desempenho final da safra.
O que observar
Nas áreas irrigadas do oeste baiano, a orientação é monitorar continuamente a umidade do solo e ajustar a lâmina de irrigação à demanda da cultura, em especial na emergência e no estabelecimento das plantas. Nas áreas de sequeiro, o produtor deve acompanhar a previsão das próximas semanas e a evolução da água no solo antes de avançar o plantio, já que os meses seguintes, com a soja na fase reprodutiva, serão decisivos para o rendimento.
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Ronaldo Juares
Jornalista de A Voz do Campo. Escreve sobre clima, safra e pecuária, com foco no que muda a rotina no campo.