Crédito rural cai 10,8% em 12 meses e dívida problemática chega a R$ 207 bilhões
Levantamento da Farsul com dados do Banco Central mostra crédito novo mais escasso, inadimplência quase triplicada e alerta para a safra 2026/27.
O produtor rural está tendo mais dificuldade para conseguir dinheiro novo, e ao mesmo tempo a dívida antiga do campo não para de crescer. É o que mostra uma nota técnica da Assessoria Econômica da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), divulgada nesta quinta-feira (5), com base nos dados do Sicor e da Matriz de Dados do Crédito Rural do Banco Central.
Nos 12 meses encerrados em setembro de 2026, as contratações de crédito rural somaram R$ 327,72 bilhões, uma queda de 10,81% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em comparação com o pico de abril de 2024, o recuo chega a 22,41%. Como os números não descontam a inflação, a perda real de recursos é ainda maior.
Plantio com menos dinheiro
O trimestre de julho a setembro, quando o produtor financia a implantação da lavoura, foi o que mais sofreu. Foram contratados R$ 87,79 bilhões, volume 22,65% menor que em 2025 e 46,55% abaixo de 2023 — a terceira queda seguida, deixando o total abaixo até de 2021 em valores nominais. Os recursos a juros livres, que dependem diretamente da Selic em 13,75% ao ano, encolheram 54,9% no trimestre.
Para a Farsul, o cenário é de racionamento: em vez de cobrar mais caro, os bancos simplesmente deixam de emprestar.
Quem perdeu e quem ganhou
- Pronaf (agricultura familiar): alta de 6,88%, para R$ 71,56 bilhões;
- Pronamp (médio produtor): estável, em R$ 55,61 bilhões;
- Demais produtores: queda de 18,18%, para R$ 200,55 bilhões.
O custeio, que representa mais da metade das contratações, puxou a queda. No caso da soja, o custeio contratado no trimestre de plantio despencou de R$ 36,72 bilhões em 2023 para R$ 14,05 bilhões em 2026, e a área financiada caiu de 8,03 milhões para 2,95 milhões de hectares.
A bola de neve da dívida
A carteira total de crédito rural chegou a R$ 884,21 bilhões em julho. Desse total, R$ 207,47 bilhões (23,46%) estão em situação problemática — operações renegociadas, prorrogadas, em atraso ou inadimplentes. Em dezembro de 2023, essa fatia era de apenas 5,46%. A inadimplência acima de 90 dias quase triplicou em um ano, de R$ 15,65 bilhões para R$ 45,71 bilhões.
O Rio Grande do Sul concentra cerca de um quinto do problema: R$ 44,89 bilhões em dívida problemática, o equivalente a 41,17% do saldo do estado.
Renegociação ainda curta
A Medida Provisória 1.376/2026 abriu uma janela de renegociação que vai até 12 de novembro. Até 30 de outubro, ela gerou R$ 18,60 bilhões em novas operações, com juro médio de 9,63% ao ano e prazo médio de 8,56 anos — menos de 9% da carteira problemática do país. A Farsul considera a medida tardia e pede prorrogação do prazo, inclusão de operações com CPR, regras iguais entre os bancos e reforço do custeio para Pronamp e demais produtores.
O que o produtor deve observar
Com a Conab projetando 49,3 milhões de hectares de soja em 2026/27, a Farsul recomenda cautela: o maior risco, segundo a entidade, não é uma queda brusca de área, mas lavouras com menos investimento, produtividade menor e mais inadimplência. Quem tem dívida em atraso deve procurar o banco antes do fim da janela da MP.
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